Pedofilia – Impactos nas Vítimas de Abuso Sexual

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Pedofilia – Impactos nas Vítimas de Abuso Sexual

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Por Andrea Freitas e Silvana Meneses

A pedofilia, apesar de violenta e traumática para as vítimas, muitas vezes esconde-se no silêncio advindo da noção de que ‘os adultos são donos das crianças’ e muitas vezes do conflito existente na criança em ‘amar o agressor e odiar a agressão’ – nos casos de agressores sexuais que fazem parte da família, ou são amigos da família e da criança. Em 2008, foi criada a CPI no Estado de São Paulo para “investigar o crime de Pedofilia no âmbito do Estado de São Paulo, e suas conexões com outros estados e países”. A relatoria desta CPI ressaltou que o problema é gravíssimo, no Estado de São Paulo e no Brasil e que trabalhos preventivos de conscientização da população, das potenciais vítimas e dos agentes públicos podem contribuir significativamente para evitar a consumação deste crime.

Dados de 2011 do sistema de Vigilância de Violências e Acidentes (VIVA in Veja) mostravam que de 14.625 notificações de agressões, a violência sexual era o segundo tipo de violência mais comum contra crianças de zero a nove anos.

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Fonte do Gráfico: Sistema de Vigilância de Violências e Acidentes (VIVA), do Ministério da Saúde in Veja/Abril.

O desenvolvimento da criança é marcado pelo predomínio (mas não exclusividade) de uma realidade sobre a outra: há a fase do desenvolvimento sensorial e motor que ocorre entre os 2 e 3 anos de idade, do desenvolvimento afetivo que ocorre entre os 3 e 5 anos e das atividades individuais e em grupo a partir dos 6 anos (Ontória, Luque e Gomez, 2008). As crianças que sofrem violência podem ter desestruturadas sua base de formação física e psíquica impactando radicalmente as fases de desenvolvimento comprometendo a formação da afetividade, personalidade e valores:

“São marcas profundas que podem modificar seu modo de encarar o adulto e o mundo que ele representa. Os valores de família, amor, carinho e proteção podem ser distorcidos, gerando a destruição de importantes valores sociais. Para a sociedade, o resultado do rompimento de vínculos e desestruturação familiar pode refletir-se na progressão da violência de maneira global, onde o respeito ao ser humano e a valorização da vida deixam de existir”. Caderno de violência doméstica e sexual contra crianças e adolescentes. SMS. São Paulo: 14

LOPEZ SANCHES (1991, p.27-30) descreveu os principais impactos de abusos sexuais nas crianças segmentando-os em 1) impactos físicos mais frequentes; 2) impactos psicológicos mais frequentes; 3) efeitos sociais mais frequentes e 4) efeitos em longo prazo.

Entre os impactos físicos mais frequentes estão os distúrbios de sono, mudanças de hábitos alimentares, gravidez e doenças sexualmente transmissíveis. Entre os impactos psicológicos mais frequentes há o medo, hostilidade frente ao sexo do agressor, culpa, depressão, baixa autoestima, conduta sexual anormal como masturbação compulsiva, exibicionismo, angústia, agressões, condutas antissociais e sentimentos de estigmatização. No âmbito social verificam-se as dificuldades escolares, as discussões familiares, a fuga, a delinquência, e a prostituição. Em longo prazo observam-se as fobias, pânico, personalidade antissocial, depressão com idéias de suicídio, tentativa ou suicídio levado a cabo, cronificação dos sentimentos de estigmatização, isolamento, ansiedade, tensão e dificuldades alimentares, dificuldades de relacionamento com pessoas do sexo do agressor (amigos, pais, filhos, companheiros), reedição da violência, revitimização, distúrbios sexuais além da drogadição e alcoolismo.

KENDALL-TACKETT, WILLIAMS e FINKELHOR (1993) classificaram os impactos do abuso sexual de acordo com as idades 1) de 0 a 6 anos; 2) de 7 a 12 anos e 3) de 13 a 18 anos.

Os impactos existentes na faixa etária de 0 a 6 anos são ansiedade, pesadelos, transtorno de estresse pós-traumático e comportamento sexual inapropriado. Na faixa etária de 7 a 12 anos compreendem o medo, distúrbios neuróticos, agressão, pesadelos, problemas escolares, hiperatividade e comportamento regressivo e na faixa etária de 13 a 18 anos abrangem a depressão, isolamento, comportamento suicida, autoagressão, queixas somáticas, atos ilegais, fugas, abuso de substâncias e comportamento sexual inadequado.

Os sintomas que ocorrem em qualquer das três fases de desenvolvimento são: pesadelos, depressão, retraimento, distúrbios neuróticos, agressão e comportamento regressivo.

A psicóloga Maria Isabel Ribeiro (2014) reforça que o abuso sexual infantil provoca danos na estrutura e nas funções do cérebro, incluindo as que desempenham papel importante na cognição, na memória e nas emoções, aumenta o risco de se desenvolver transtornos mentais e comportamentos autodestrutivos. Há grave repercussão no funcionamento psicológico das vítimas, principalmente quando a violência sexual ocorre no ambiente familiar, que deveria ser um espaço protetivo, mas traduz-se, nestes casos, como ambiente ameaçador, gerando a sensação de desamparo, medo e abandono.

Os diferentes levantamentos sobre os impactos nos mostram o quão importante é agirmos preventivamente e atentamente no acompanhamento diário das crianças e adolescentes a fim de evitar os abusos. É necessária atenção à manifestação dos sinais que são comunicados pelas crianças e adolescentes. Conforme vimos nos impactos estudados pelos diferentes autores, muitas vezes os sinais se manifestam através de desconforto ou mal estar, cuja origem está no profundo sofrimento causado pela ocorrência do abuso.

Quando não for possível a ação preventiva, mas identificarmos casos de abuso é fundamental agirmos denunciando para que haja o socorro da vítima e a punição do(s) criminoso(s).

Canais de Denúncia:

São Paulo – DHPP – Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa
– Endereço: Rua Brig.Tobias, 527 – 3º Andar – 4ª Delegacia de Polícia de Repressão à Pedofilia
– E-mail para dhpp.pedofilia@policiacivil.sp.gov.br
– Disque: 3311-3535
3311-3536

Polícia Federal
– E-mail para denuncia.ddh@dpf.gov.br ou
– Disque 100

Bibliografia:

  • Secretaria da Saúde da Cidade de São Paulo. 2007. Caderno de violência doméstica e sexual contra crianças e adolescentes. Coordenação de Desenvolvimento de Programas e Políticas de Saúde – CODEPPS. São Paulo: SMS.
  • Diário Oficial do Estado de São Paulo. Relatório Final dos Trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito constituída pelo Ato n.º 12, de 2010. Volume 120 • Número 239 • São Paulo, sábado, 18 de dezembro de 2010.
  • Kendall-Tackett, K. A., Williams, L. M., & Finkelhor, D. (1993). Impact of sexual abuse on children: A review and synthesis of recent empirical studies. Psychological Bulletin, 113, 164-180.
  • López Sanches (1991, p.27-30) in Relatório Final dos Trabalhos da CPI da Pedofilia – São Paulo, 18/12/2010
  • Maria Isabel Ribeiro in Palestra “Impactos Psicológicos nas Crianças Vítimas de Agressão” – no Seminário Pedofilia – A Prevenção do Abuso Sexual e o Pós Abuso: como orientar alunos e lidar com as Vítimas. 30/05/2014.
  • Ontória, Luque e Gomez. 2008. Aprender com Mapas Mentais. São Paulo:Madras.
  • http://veja.abril.com.br/noticia/saude/abuso-sexual-e-o-segundo-tipo-de-agressao-mais-comum-contra-criancas-brasileiras. 22/05/2012.

Agradecemos por sua coragem de nos contar um caso tão delicado.

O reconhecimento de situações de violência é muito importante para que se possa dar encaminhamento adequado, tanto para quem sofreu à violência como para quem a praticou. Esse acompanhamento também deverá ser extensivo à família visando o enfrentamento da situação e amenização do trauma e das demais consequências sociais, psicológicas e físicas decorrentes desta violação de direitos humanos.

O Instituto ABIHPEC não fornece atendimento direto à população ou acompanhamento dos casos, nem atua na responsabilização de agressores. Desde 1999, lutamos por uma infância e juventude livres de exploração e abuso sexual desenvolvendo programas regionais e nacionais junto a empresas, conscientizando a população sobre o tema e influenciando políticas públicas.

Recomendamos que procure o Ministério Público da Infância e Juventude do seu estado, a Delegacia de Polícia da Criança e do Adolescente de sua cidade ou o Conselho Tutelar do seu município para solicitar auxílio.

Outras informações podem ser encontradas na seção “Informe-se e saiba como Agir” do nosso site.

Seguem contatos que achamos que podem ajudar neste processo:

PAVAS – Programa de Atenção à Violência Sexual
Dados para contato:
Endereço: Faculdade de Saúde Pública USP
Endereço: 03178-200, Av. Dr. Arnaldo, 925 – Sumaré, São Paulo – SP
Telefone: (11) 3061-7721

CEARAS – Centro de Estudos e Atendimento Relativos ao Abuso Sexual / Instituto Oscar Freire/ FMUSP
Endereço: Rua Teodoro Sampaio, 115, Faculdade de Medicina da USP – Instituto Oscar Freire, Cerqueira Cesar
CEP: 05405-000 São Paulo – SP
Telefone: (11) 3061 84 29
E-mail: cearas@iof.fm.usp.br
Site CEARAS

Centro de Referência às Vítimas de Violência do Instituto Sedes Sapientiae
Endereço: Rua Ministro Godoy, 1484, Perdizes
CEP: 05015-900 São Paulo – SP
Telefone: (11) 3866 27 56 e (11) 3866 27 57
Email: cnrvv@sedes.org.br
Site Sedes